FICOO Dia 1 – Interagindo em Rede

Review do 1º dia do Festival Internacional da Cooperação, de 9 a 12 de outubro de 2015 em Atibaia-SP.

O primeiro dia do primeiro Festival Internacional da Cooperação começou com algumas dinâmicas em grupo para descontração e integração. Ao chegar, no credenciamento você recebia um crachá em branco onde deveria escrever seu nome da forma que quisesse expressando em cores e desenhos alguma mensagem. Achei diferente e interessante pois muitas pessoas fizeram verdadeiros designs de crachás, expressando sentimentos de formas simples e coloridas. Como não sei desenhar muito bem, coloquei apenas meu nome e algumas formas hexagonais que para mim representam o potencial das estruturas em rede.

ABERTURA

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Fábio Marinho Calderano – Abertura do FICOO

A abertura do Festival foi feita pelo Fábio Brotto e pelo Fábio Marinho Calderano que trouxe o Mito da DiverCidade, a lenda que inspirou o Festival. O antigo Mito da DiverCidade, retrata a história da primeira cidade da Terra, que segundo a tradição foi criada sobre princípios de paz, cooperação e bem-estar, mas precisou desaparecer para continuar vivendo em todos os habitantes do planeta. Assim, o sonho do Festival era recriar e reviver a experiência milenar daquela Cidade Diver, que acreditava no valor da cooperação e nutria enorme prazer pelo encontro. (Conheça o mito na íntegra).

Após resgatar a história do Mito e os valores que motivaram cada um a estar ali, foi feito um juramento pela diversificação e foram apresentadas as 7 habilidades fundamentais da cooperação, ou as 7 atitudes Diver:

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As 7 Atitudes Diver

Os 7 Princípios ou Habilidades da Cooperação:

  • Conectar
  • Cuidar
  • Compartilhar
  • Confiar
  • Co-criar
  • Cultivar
  • Celebrar

Em seguida, foi proposto que as pessoas se aproximassem em grupos de 4 onde cada um contou porque estava ali e também para contar contar uma história sobre alguma cicatriz no corpo e qual a lição aprendida. Essas foram as primeiras pessoas que conheci e tive um contato mais próximo, e foi sugerido também que as pessoas trocassem algum objeto e que a partir dali esses seriam seus guardiões no Festival, pessoas que tinham a função de cuidar umas das outras até o último dia. Trocamos palavras de força que representavam as cicatrizes e lições e que nos serviriam de motivação para os momentos difíceis. Foi muito bom conhecer pessoas novas e já se sentir parte de um grupo logo no início.

1ª CONFERÊNCIA – AUGUSTO DE FRANCO (A Cooperação em uma Sociedade em Rede)

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Augusto de Franco

Após a abertura e interações iniciais, chegou o momento da primeira conferência: Augusto de Franco, e a cooperação em uma sociedade em rede. Augusto que é escritor, palestrante e consultor, trouxe uma visão sobre o funcionamento das estruturas em rede e como se dão as relações neste tipo de organização. Segundo Franco, estamos em um momento de transição, entrando em uma sociedade em rede, ou seja, pessoas interagindo com pessoas e que a cooperação depende da maneira como agente interage, de que forma conduzimos as interações. Não basta participar, é preciso interagir, e somente interagindo humanizamos as relações, criando agrupamentos cooperativos. Ele faz uma analogia com o poema de Manoel de Barros:

“Uma árvore bem gorjeada em poucos segundos passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam…” Manoel de Barros

Então, em um mundo altamente conectado por diferentes mídias, as sociedades em rede estão emergindo cada vez mais rápido e em diversos lugares. Porém, a tecnologia é apenas o meio, a ferramenta que une e acelera, mas ela não define a interação. A interação deve ser a ação consciente de cada indivíduo, não pode ser manipulada, e o que define a rede como social é a própria sociedade.

Em seguida, Augusto trouxe o famoso diagrama de Paul Baran de 1964 sobre interações e organizações em rede.

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Diagrama de Baran

O detalhe é que os pontos são os mesmos nas 3 figuras, mas evidentemente a figura C, que representa a rede distribuída, é a que possui o maior número de conexões e interações. Esse diagrama representa o potencial das organizações em rede e como esse modelo pode ser aplicado em qualquer tipo de organização, inclusive na sociedade, distribuindo o poder e horizontalizando as relações. Para mim, este diagrama representa também uma ilustração de um sistema de organização social que ficou no passado (A e B), e que agora com os novos conceitos da sociedade em rede, tem o potencial de empoderamento de todos os participantes de uma sociedade, e a chave para ativar este sistema distribuído é a cooperação, colaboração e compartilhamento.

“Com uma nova forma de organizar as pessoas podemos ter uma sociedade diferente.” Augusto de Franco

Mas para que a rede distribuída aconteça de fato, é preciso que a conectividade acompanhe a distribuição, ou seja, acesso a todos, e a interatividade acompanhe a conectividade, isto é, é preciso interagir. E na medida que a rede se movimenta são criados mais caminhos. Daí a importância da interação, redes sociais são ambientes de interação, não de participação. Ambientes participativos requerem pautas e regras estruturadas, redes não. A rede se define a partir das interações, que devem ser autênticas. Quanto mais conexões, mais interações são possíveis e mais diversa e coesa é a rede. E quanto mais interativa é a rede, e o fluxo social cresce, ela se torna maior que nós e não pode ser direcionada.

“Em uma rede bem distribuída, a única forma de fazer algo é cooperar.” Augusto de Franco

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Poster: Cooperação em Rede (design ao vivo de Carolina Ramalhete e Marina Nicolaiewsky)

Para finalizar, Franco trouxe alguns conceitos sobre fenômenos da interação, como a “clusterização“, o crunching, o swarming e o cloning. Clustering são movimentos de aglomerar, ou formar pequenos grupos que compartilham afinidades. Esses grupos podem se aproximar e interagir, criando o swarming (enxamear). Crunching são pequenas partes da rede que estão separadas por barreiras e cloning é o comportamento que pode ser repetido.

Em geral gostei da palestra do Augusto, mas como já conhecia o tema, pra mim ficou um pouco superficial. De qualquer forma achei que foi uma linha de pensamento perfeita para abrir os trabalhos do Festival, trazendo noções do que é uma sociedade em rede, do seu potencial e de como e porque devemos nos afetar.

“O que precisa mudar não é o discurso, é o comportamento, o exemplo.” Augusto de Franco

OPEN SPACE – COMPARTILHANDO INQUIETAÇÕES

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Integração

A última atividade do dia foi muito significativa ao meu ponto de vista. Reunidos na quadra central do FICOO, todos os participantes se juntaram em uma dança circular para promover a interação e integração de todo o grupo. Até aquele momento eu não sabia muito bem o por que das danças circulares, mas esse é um assunto que vou tratar mais adiante. De qualquer forma participei.

Após a dinâmica da dança, haviam painéis espalhados pelo espaço, cada um com um tema como: mobilidade urbana, política, economia, conflitos internacionais, família, educação, mobilização social, redes, trabalho, mídias sociais, meio ambiente e até um “campo em branco”. Cada pessoa deveria escolher o tema que mais lhe interessava e se dirigir ao painel, onde se reuniram em grupo. Cada grupo discutiu seu tema e sintetizaram em algumas perguntas quais as questões relevantes para cada caso.

Participei do tema “Redes” e tivemos um bate papo bem produtivo sobre o fenômeno das redes, seu potencial e papel frente às demandas globais. O mais interessante foi ver opiniões de pessoas de diferentes áreas, que enxergam as redes com focos distintos e assim trouxeram bastante diversidade para a discussão. Ao final, resumimos em 3 questões:

“Como a cooperação colabora para ampliar as interações em rede?”

“Como usar mais a cooperação nas nossas redes pessoais para melhorar nossa vida cotidiana?”

“Como fazer a transição sem nos perder na abundância?”

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Questões em Pauta

Da mesma forma que o grupo “Redes”, outros grupos levantaram questões como:

Educação: “Como transformar a educação em uma rede social interativa?”. “Como transformar a escola que é um espaço de ensino em um ambiente de aprendizagem cooperativa?”. “Como a cooperação pode transformar a educação atual?”. “Como as metodologias colaborativas podem ser inseridas nos ambiente educacionais para construção da aprendizagem em rede?”. “Como educar cooperativamente em uma sociedade competitiva?”.

Família: “Por que é tão difícil cooperar em família?”. “Como preservar a cooperação em ambientes familiares frente a novas demandas e velhos padrões?”

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Questões em Pauta

Meio Ambiente: “Como podemos perceber que todos e tudo está conectado e que fazemos parte de um único organismo?”. “Como colaborar a nível individual para atingir a nível global?”. “É possível cooperar com o meio ambiente sem cuidar do meu ambiente?”.

Economia: “Em um cenário de crise econômica, quais são as alternativas para uma economia colaborativa e seus respectivos modelos de negócios?”. “Como desvincular dinheiro de acesso e de sobrevivência?”.

Política: “Como a sociedade civil pode organizar ambientes cooperativos para transformar a cultura política?”. “Como podemos fortalecer e envolver a micro política emergente em processos mais amplos de mudança social?”

Mobilização Social: “Como favorecer as condições do ambiente para que as transformações sociais aconteçam e permaneçam?”. “Como criar um ambiente fértil para que aconteça a interação?”. “O que faz com que as pessoas se mobilizem socialmente?”

Conflitos Internacionais: “Como utilizar a cooperação para estabelecer novas vias de diálogo que levem a paz?”

Mobilidade Urbana: “Quais as dinâmicas de interação entre os mecanismos espontâneos e os órgãos públicos para legitimar a mobilidade urbana?”

Trabalho: “Como criar ou transformar uma empresa hierárquica em rede?”. “Como estruturar as relações de trabalho de modo a ter um comportamento cooperativo?”. “Como construir redes dentro de uma estrutura hierárquica?”. “Como deixar emergir a cooperação?”. “Como ser agente de mudança?”. “Como transformar meus comportamentos para me tornar cooperativo e romper padrões?”. “Como garantir o resultado coletivo sem desvalorizar as necessidades individuais?”.

Campo em Branco: “Como a diversidade pode se materializar no dia a dia?”. “Como criar mais papéis em branco?”. “Como acessar o potencial do vazio?”

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Questões na Roda

Depois, todas as perguntas e seus temas foram colocados no centro da roda onde as pessoas podiam circular e observar as questões pautadas. Foi um momento de grande reflexão em grupo, onde a visão e experiência de cada pessoa presente pôde contribuir para a construção de questionamentos relevantes, que da ótica da cooperação poderiam sintetizar alguns dos grandes problemas mundiais. No terceiro dia voltaríamos a discutir os mesmos temas, não para levantar questões, mas sim projetos.

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Celebração Final

E assim, com uma dança circular para descontrair e estreitar laços encerramos as atividades na quadra central.

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Apresentação do Grupo Tomaraquidê

Maaas, o dia ainda não havia terminado, e na praça da Igreja Matriz de Atibaia, iria acontecer o espetáculo de comédia “Tomaraquidê Jadeu – O Maior Show da Terra”, de Cláudio Thebas. Os participantes do FICOO se misturaram ao moradores da cidade, famílias, crianças, e num clima super agradável, típico do interior, riram das piadas e trolladas do “Destemido Bristol”, a “Inacreditável Majestic” e o “Poderoso Marabá” (Claudio Thebas, Chris Belluomini e Álvaro Lages). O espetáculo foi mega divertido, envolveu a comunidade presente e acho que não só eu como muita gente ficou com aquela musiquinha na cabeça por um bom tempo: “…é o Cambises, não é tecido é nome de homem…”

Uma excelente forma de encerrar o primeiro dia do FICOO. (09/10/2015)


Por Alonso Alves Pereira Neto

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